Chapas que não representam a nós, mulheres

O eleitorado feminino é o maior do país com 52,8%, mas, pela primeira vez no século, não há representantes do gênero nas chapas representativas do Estado. E esse dado, além de preocupante, se torna ainda mais significativo quando o atual contexto é de recorde em casos de feminicídio e debates acerca da dupla jornada da mulher.

Esse artigo pode parecer um pouco difícil de aceitar, mas a sua leitura pode te fazer questionar e porque não transformar o conformismo em inquietação.

Eleições 2026

Dia 16 de agosto de 2026, foi dada a largada para as campanhas políticas presidenciais no Brasil. E, desde 2013, com as movimentações populares organizadas inicialmente pelo Movimento Passe Livre que se iniciaram em São Paulo e se estenderam em todo o território, que a população sofre as consequências de um país marcado pela polarização política.

Essa característica, sendo acentuada nas eleições seguintes, é cada vez mais evidente: de um lado o eixo lulista com o partido dos trabalhadores (PT) e do outro, o eixo bolsonarista com o partido liberal (PL). Mais do que divergências políticas e econômicas, o Brasil vive um conflito que não olha necessariamente as ideias e projetos dos partidos, e sim o comportamento de seus principais líderes.

Acontece que, embora essa seja a realidade, é a primeira vez que as chapas representativas não contam com nenhuma mulher candidata.

2002: Rita Camata, candidata a vice-presidente na chapa de José Serra.

2010 e 2014: Dilma Rousseff e Marina Silva, candidatas à presidência.

2018: Marina Silva, candidata à presidência e Manuela d’Ávila candidata a vice-presidente.

2022: Simone Tebet e Soraya Thronicke, candidatas à presidência.

2026: Samara Martins (UP) e Clariana Barão (DC), disputam, mas não possuem representantes no Congresso Nacional.

Impacto da ausência

O papel da mulher na sociedade é vasto, e a pouca aderência a cargos políticos interfere em muitos temas importantes, como por exemplo a diversidade democrática, políticas públicas centralizadas nas necessidades específicas da mulher e a própria representatividade.

Para uma sociedade mais justa, se faz necessário ter diferentes perspectivas diante de um assunto, e quando existe a falta da mulher em debates que podem culminar em decisões importantes, a população feminina perde o ponto de vista mais aproximado de suas vivências e realidades.

Afinal de contas, existem necessidades que são exclusivas: como a pauta da licença-maternidade, reforço no combate à violência doméstica, equidade salarial em grandes corporações, maternidade atípica, tratamentos oportunos à menopausa, exames preventivos e outros.

Quando se tem chapas representativas que não representam a nós, mulheres, temos um cenário de pouca atenção – para não dizer nula –  ao que importa para a maior fatia do eleitorado. Isso significa poucos debates, projetos enfraquecidos e baixos recursos e orçamentos para os temas.

Impacto da presença

Mary Wollstonecraft, escritora e filósofa inglesa, escreveu “Não desejo que as mulheres tenham poder sobre os homens, mas sobre si mesmas.” E, essa frase dentro de um contexto onde a autora trabalhava para defender os direitos das mulheres, é muito profunda. Pois, ao contrário do que quem é aquém aos temas feministas imaginam, a luta pelo espaço da mulher não é uma competição com os homens e sim a busca por “andar” no mesmo passo, com o mesmo respeito e direitos reservados.

Segundo pesquisa da Nielsen, 90% das mulheres acessam a internet diariamente, um resultado expressivo e fomenta, por exemplo, a importância das redes sociais na interação e engajamento com temas sociais e que são capazes de construir novas lideranças e a partir desse dado, com potencial feminino.

E cargos de poder, ocupados por mulheres, refletem em olhares mais cuidadosos para o gênero.

Leolinda Figueiredo (1859 – 1935) foi uma professora, sufragista e indigenista brasileira que não somente fundou o Partido Republicano Feminino, como também lutou a favor do direito ao voto pelas mulheres.

Maria da Penha, nascida em 1945, lutou politicamente em busca de justiça contra à violência doméstica sofrida por mulheres, que culminou na Lei Maria da Penha e Instituto Maria da Penha, ONG sem fins lucrativos que atende toda população.

As campanhas ainda não terminaram, mas já saímos muito atrás

Em um país onde 8 a cada 10 mulheres vivem dupla jornada de trabalho, a falta de assistencialismo aumenta os níveis de estresse e consequentemente rendem menos profissionalmente, olhar para o ano eleitoral e não “se ver” representada por nenhum cargo ou partido, é perder as esperanças de um país mais igualitário e justo.

Nós mulheres, perdemos em muitos sentidos, com a falta de uma representação que foca em pautas mais sociais pensando nas realidades múltiplas do povo brasileiro. Não é somente as mulheres que são afetadas, mas toda a sociedade que é cuidada por figuras femininas.

De olho nos dados

Segundo o TSE, mesmo com 52,84% do eleitorado brasileiro, as mulheres representam apenas 35% das candidaturas registradas para as eleições de 2026.

No Senado, apenas 15 das 81 cadeiras são ocupadas por mulheres em 2026.

Em 18 de Setembro de 2025, a Lei nº 15.212/2025 tornou “Lei Maria da Penha” o nome oficial da Lei 11.340/2006.

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