Nosso cérebro, um mistério que começa em uma mosca

Em 3 de setembro de 2026, a revista Cell publicou um estudo – com mais de uma década de dedicação – sobre o primeiro conectoma de uma mosca-das-frutas macho. O projeto foi liderado pela HHMI Janelia e colaboradores da MRC Laboratory of Molecular Biology da Universidade de Cambridge, em parceria com a Google Research.

Com mais de 166 mil neurônios e 125 milhões de conexões sinápticas catalogadas, esse é o maior mapeamento cerebral já feito. Além do cérebro, o cordão nervoso ventral (similar a nossa medula espinhal) e os lobos ópticos também foram incluídos, ou seja, dá para “acompanhar o caminho completo” de um estímulo desde o olho da mosca até a resposta dele.

Por que uma mosca?

A resposta é bem simples: catalogar os cerca de 86 bilhões de neurônios humanos ainda é um desafio fora dos nossos limites atuais. No passado, os cientistas começaram com o conectoma da Caenorhabditis Elegans, um pequeno verme, e mesmo assim demoraram décadas para conseguir finalizar.

A evolução natural seria pegar algum organismo simples, porém, mais complexo e que fosse viável com as ferramentas disponíveis. A escolhida foi a Drosophila Melanogaster, nome científico da mosca-da-fruta, que é um dos organismos mais estudados pela genética por conta do seu breve ciclo de vida, cerca de 10 dias, e comportamento previsível.

Como foi o processo?

Tudo começou com o fatiamento do cérebro em milhões de cortes “finíssimos” que foram fotografados por um microscópio e depois foi utilizada uma técnica chamada de “flood-filling networks”.

A “rede de preenchimento por inundação” é um algoritmo que colore objetos e depois os preenchem como se possuíssem volume. Nas palavras de Jeff Lichtman, professor de biologia molecular na universidade de Harvard, “É como se jogássemos tinta em um cano”.

Por fim, após a segmentação automática, equipes de especialistas humanos revisaram, corrigiram erros e anotaram cada neurônio e cada conexão. É esse trabalho de revisão que consome anos de esforço humano e é o maior problema da conectômica hoje.

Diferenças entre macho e fêmea

O grande diferencial foi o mapeamento completo do cérebro de uma Drosophila macho. Até então, todos os outros estudos foram concluídos com moscas fêmeas. Com os dois mapeados, pela primeira vez, podemos comparar comportamentos sociais entre sexos.

O resultado encontrado foi que a maioria dos neurônios é igual em ambos (chamados de isomórficos), poucos são exclusivos e outros são dimórficos, ou seja, existem nos dois mas se conectam de forma diferente dependendo do sexo.

Essas diferenças somam cerca de 4.8% do cérebro central, mas se concentram em áreas responsáveis por comportamentos de namoro ou agressividade. O que explica como mudanças sutis podem gerar reações distintas.

Conhecimento disponível a todos

Diferente de muitas pesquisas que ficam “trancadas a sete chaves”, esta pode ser explorada por qualquer pessoa.

A ferramenta principal é o Neuroglancer, criada pela própria Google para visualizar este tipo de dados tridimensionais com volume gigantesco, diretamente no navegador. E melhor ainda, sem precisar instalar nada!

Todo o conjunto está sob licença CC-BY que permite a utilização, redistribuição e adaptação livremente, desde que seja dado o devido crédito.

O que vem por aí

Os métodos desenvolvidos estão sendo aplicados a outros projetos, como a reconstrução do cérebro da larva do peixe-zebra e do camundongo.

Entender como estes “animaizinhos” funcionam pode ser nossa primeira pista para decifrar como resolver doenças como: alzheimer, esquizofrenia e depressão. Não temos ainda uma solução, mas agora temos um direcionamento.

É um avanço “pequeno”, mas é o primeiro passo para decifrar o maior mistério que ainda temos: nosso próprio cérebro.

De olho nos dados

O primeiro conectoma da C. Elegans, que tem 302 neurônios, demorou 16 anos para ser concluído, enquanto o da Drosophila, com 166.691, levou pouco mais de uma década.

Foram catalogados 11.691 tipos de neurônios diferentes, sendo 7.205 isomórficos, 114 dimórficos, 262 exclusivos de machos e 69 exclusivos de fêmeas.

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