Jessie e a economia da atenção

A temática do último filme da saga Toy Story, lançado em junho deste ano, reacende uma reflexão totalmente presente no cotidiano: o uso demasiado das tecnologias. E, ao sair da sala do cinema, fica aquele pensamento de que talvez, não só as crianças devem ser cuidadas em relação a essa nova realidade, mas nós também.

Attention Economy, uma economia sutil com consequências ilimitadas

Nas escolas, durante as aulas de geografia e história, é ensinado sobre as economias de um país. Por exemplo: economia de mercado, economia planificada e economia mista. Porém, hoje existe um modelo que está agressivamente nos nossos dias, a economia da atenção ou attention economy.

Nossa atenção é um recurso limitado e, por esta razão, as empresas disputam nossa atenção e com isso, estratégias são minuciosamente estudadas e executadas, e neste artigo vamos nos concentrar nas redes sociais.

O objetivo da publicidade e do marketing não mudou, é o mesmo há milênios, vender e adquirir receita. Mas, isso muda o formato quando não apenas da venda de produto e/ou serviço se conquista este alvo. Com as redes sociais, o tempo de tela, os cliques e engajamento também são maneiras de aquisição.

E pensando de forma um pouco mais aprofundada, não apenas a empresa ganha, mas principalmente a própria rede com a permanência dos usuários no aplicativo.

Existem alguns facilitadores, sendo os principais: o uso de inteligência artificial para a coleta de dados de uso e interpretação do comportamento dos consumidores e “tempo infinito”, não existe uma barreira, postagens são feitas a cada segundo durante todos os dias.

Como somos atingidos

Com o conhecimento de que somos atacados por informações o tempo todo, para as empresas é necessário estudar como prender a atenção em instantes, e quem entende todo o fluxo de comportamento, ganha mais.

É por isso que temos notificações e gamificações, que projetam curiosidade e a motivação para continuar constantemente a utilizar as redes. E estes, embora sejam amplamente utilizados, ainda não representam de fato a proporção que outras estratégias como storytelling e branded entertainment podem causar nesta economia.

Todos esses elementos, se bem estruturados, são capazes de reforçar o relacionamento entre empresa e consumidor, e é neste momento que a atenção é captada, e a troca acontece.

Qual a consequência disso

As consequências são múltiplas, e por isso, serão enfatizadas duas: sobrecarga desproporcional de pequenas e médias empresas em relação às grandes corporações e bolhas sociais com as mesmas opiniões e comportamentos.

As estratégias levantadas acima ainda não representam a totalidade do que é feito hoje para prender a atenção dos usuários. E, cada vez mais, é necessário estudar sobre elas e a prática exige competências e habilidades que muitas vezes pequenos e médios empresários não possuem e tampouco recursos para a contratação de profissionais que possam ajudar a atingir o objetivo final que é o aumento do faturamento.

Mas, como competir com times especializados das grandes marcas?

Outra profunda consequência, é que conteúdos que atingem uma audiência numerosa, influenciam não apenas o consumo, mas também ideias e opiniões para diferentes temas da sociedade que vão desde assuntos supérfluos até políticos e culturais. O imperador romano “Marco Aurélio”, conhecido pelo pensamento estoico, tem uma citação bastante reconhecida que diz “Mudar de opinião e seguir quem te corrige é também o comportamento do homem livre”.

No atual contexto digital, vale a reflexão se de fato, somos livres para mudar de opinião. Afinal de contas, é tudo monitorado, a entrega do Ads é estratégica, programada para o like.

Temos tudo a todo tempo, mas queremos pausas

A Jessie de Toy Story só queria uma coisa para a sua criança: que ela voltasse a brincar. E brincar, é imaginar, criar histórias nunca antes vistas, escutadas, são criações individuais e cheias de personalidade.

Para nós, consumidores atuais, a pausa também pode ser entendida como uma brincadeira, mas com um tom mais reflexivo: o que gosto, o que sei fazer, com quem eu dividiria uma imaginação criativa?

Talvez, depois disso, metade das páginas hoje compartilhadas perdessem a graça.

Se ninguém estivesse disputando a sua atenção, para onde você escolheria levá-la?

De olho nos dados

Estudo da BR Media e Publicis aponta que o tempo médio de foco não passa de 8 segundos.

Relatório da RealTime Data Stats estima que a chamada “economia da atenção” movimentou US$ 1,2 trilhão em 2025.

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